Tinha apenas nove meses de vida, e não guardo qualquer lembrança daquele dia. Ainda assim, a história foi-me contada tantas vezes pela minha mãe que acabou por se tornar minha também.
Ela deixou-me no berço, a dormir, como em tantos outros dias. Tudo parecia normal. Mas, pouco tempo depois, algo a fez voltar atrás — talvez um pressentimento, talvez apenas o cuidado de mãe. Quando me foi espreitar, encontrou-me em silêncio, imóvel. As roupas estavam encharcadas, o meu corpo roxo, e o ar parecia ter desaparecido de mim.
Sem pensar duas vezes, tomou uma decisão imediata. Não houve tempo para ponderar, nem para escolher caminhos. Pegou em mim e saiu porta fora, com um único pensamento: salvar-me.
No caminho, tocou à campainha dos vizinhos. A senhora X e o senhor Y abriram a porta sem saber que, naquele instante, as suas vidas iam cruzar-se com a minha de forma definitiva. Sem cerimónias, sem planeamento, tornaram-se os meus padrinhos ali mesmo, naquele final de dia apressado e aflito.
Seguimos para o padre. Diz-se que apareceu de robe e chinelos, chamado à pressa, ainda envolto na rotina interrompida. Não houve formalidades, apenas urgência. Num gesto rápido, abençoou-me e deixou cair água benta sobre a minha fronte.
E então, aconteceu.
Acordei.
Chorei.
O som que devolveu o ar ao meu corpo e a vida ao coração da minha mãe.
Hoje, sempre que conto esta história, não deixo de questionar: “Porque não me levou ao hospital?” E rio da situação. Porque agora há distância, há tempo, há entendimento.
Mas naquele momento, houve apenas amor, medo e fé.
E, para quem lá esteve, houve um milagre.
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